Deficiência mental e inclusão social

Marta Gil*

"Uma criança com necessidades educacionais especiais, antes de ser alguém impedido por uma deficiência, é alguém capaz de aprender."

(Prof. Dr. Hugo Otto Beyer
Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Apresentando a deficiência mental

Segundo as estimativas da Organização Mundial de Saúde, válidas para países do Terceiro Mundo, em tempos de paz, as pessoas com deficiência mental correspondem a, aproximadamente, 50% do total das PPD - Pessoas Portadoras de Deficiência.

A definição de deficiência mental que é mais aceita, atualmente, é a da American Association of Mental Retardation, datada de 1992:

Deficiência mental é um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, coexistindo com limitações relativas a duas ou mais das seguintes áreas de habilidades adaptativas: comunicação, autocuidado, habilidades sociais, participação familiar e comunitária, autonomia, saúde e segurança, funcionalidade acadêmica, de lazer e de trabalho. Manifesta-se antes dos 18 anos de idade.

Lendo com atenção esta definição, podemos concluir que deficiência mental é uma condição diferente da doença mental, embora esta confusão seja feita freqüentemente pelas pessoas. A doença mental caracteriza-se por distúrbios de ordem emocional, psicoses e outros.

Ao longo dos séculos, a pessoa com deficiência mental era, muitas vezes, discriminada e segregada, pois era considerada como "detentora de poderes sobrenaturais", "fruto de tragédia familiar", "sangue ruim", "depositária do mal" e outros rótulos, todos muito negativos.

Até o século XVIII, a própria ciência confundia deficiência mental com doença e, portanto, procurava tratamentos que trouxessem uma "cura" para esta condição. A partir do século XIX surgiu a abordagem educacional, que leva em conta as possibilidades e potencialidades da pessoa portadora de deficiência mental. Curiosamente, esta abordagem foi uma iniciativa de médicos...

Aos poucos, educadores, psicólogos e pedagogos se envolveram com esta questão e a compreensão sobre este tipo de deficiência vem aumentando. Infelizmente, vários "mitos" 1 e conceitos errados ainda persistem, como:

    • Toda pessoa com deficiência mental é doente;
    • Pessoas com deficiência mental morrem cedo, devido a "graves" e "incontornáveis" problemas de saúde;
    • Pessoas com deficiência mental precisam usar remédios controlados;
    • Pessoas com deficiência mental são agressivas e perigosas, ou dóceis e cordatas;
    • Pessoas com deficiência mental são, em geral, incompetentes;
    • Existe um "culpado" pela condição de deficiência;
    • O meio ambiente pouco pode fazer pelas pessoas com deficiência;
    • Pessoas com deficiência mental só estão "bem" com seus "iguais";
    • Para o aluno com deficiência mental, a escola é apenas um lugar para exercer alguma ocupação fora de casa.

Como identificar a deficiência mental?

A deficiência mental pode ser identificada precocemente (às vezes, ainda durante a gestação); porém, é bastante comum que a suspeita surja na escola, quando se espera mais da criança e de sua capacidade de aprendizagem.

Nestes casos, é de fundamental importância confirmar este diagnóstico, antes de enviar a criança para a sala especial e de começar a tratá-la de forma pejorativa ou discriminatória. O diagnóstico de deficiência mental deve ser feito por uma equipe de profissionais especializados (médico e psicólogo) e confirmado por um pedagogo. Além dos testes específicos, estes profissionais devem levar em conta o momento de vida que a criança atravessa e verificar o ambiente sociocultural em que ela vive.

Se for confirmada a condição de deficiência mental, após todos estes procedimentos, a criança tem direito a receber apoio especializado e sua família deve ser orientada, a fim de favorecer sua aprendizagem e seu desenvolvimento.

Que sinais podem ser observados?

É importante tornar a enfatizar que o diagnóstico de deficiência mental só pode ser feito por especialistas, após a realização de exames. Há casos, que assumem aspectos trágicos, de pessoas que passam pela vida carregando este "rótulo", sem que sejam realmente portadoras de deficiência mental.

Porém, ao observar que a criança apresenta um comportamento diferente do de outras crianças - como dificuldades em estabelecer relações de aprendizagem no seu cotidiano (na sala de aula e em outros espaços, como no pátio, na aula de Educação Física, nos passeios) - tal fato deve ser relatado ao especialista e o professor e a família devem buscar orientação junto aos serviços especializados de sua comunidade.

Estas dificuldades são um sinal de alerta, que nos informa que algo talvez não vá bem.

Alertamos, ainda, que há uma variedade e uma complexidade de situações abrangidas pelo conceito "deficiência mental". Assim, os sinais acima mencionados não esgotam o assunto.

A escala da deficiência mental

O grau de comprometimento intelectual das pessoas com deficiência mental pode ser distribuído em uma escala.

Em uma ponta estão as crianças que:

    • Desenvolvem habilidades sociais e de comunicação de forma eficiente e funcional;
    • Têm um prejuízo mínimo nas áreas sensório-motoras;
    • Podem ter comportamentos similares aos das crianças de sua idade, não deficientes;
    • Representam, aproximadamente, 85% dos portadores de deficiência mental.
    • No centro da escala estão as crianças que:
    • Têm nível de comprometimento intelectual mais acentuado;
    • Podem adquirir habilidades sociais e de comunicação;
    • Precisam de apoio e de acompanhamento mais constantes;
    • Representam, aproximadamente, 10% dos portadores de deficiência mental.
    • Na outra ponta da escala estão as crianças
    • Com rebaixamento intelectual significativo;
    • Este rebaixamento está, freqüentemente, associado a outros comprometimentos;
    • Nos primeiros anos de vida adquirem pouca (ou nenhuma) fala comunicativa;
    • Seu desenvolvimento sensório-motor também é bastante comprometido
    • Precisam de estimulação multissensorial;
    • Precisam de um ambiente estruturado, com apoio e acompanhamento constantes.

Concluindo: a maioria das crianças com deficiência mental apresenta baixo comprometimento cognitivo e, portanto, pode se beneficiar muito do processo de aprendizagem.

Assim, se a criança com deficiência mental for corretamente estimulada, desde cedo e se o ambiente educacional for receptivo e lançar mão de recursos educacionais adequados, ela poderá absorver conhecimentos.

Segundo a Profa. Lígia A. Amaral2:

"Se a deficiência for leve, a criança é capaz de atingir uma estrutura cognitiva que lhe possibilite realizar operações lógicas de nível concreto, com apoio em objetos. Portanto, consegue operar mentalmente e abstrair, tal como a criança que não é deficiente. Piaget se refere à estrutura cognitiva da criança como uma 'construção mental inacabada'. No caso da deficiência leve, a estrutura cognitiva não chega ao estágio das operações formais, ou seja, não chega à construção final - quarto e último estágio das estruturas do conhecimento. Daí a expressão 'construção mental inacabada'.

Se a criança com deficiência mental leve é capaz de operar mentalmente, embora numa idade posterior à das crianças não deficientes, ela é também capaz de ser alfabetizada e de ter acesso a outros conhecimentos das sucessivas seriações escolares.

Progressivamente, práticas inovadoras e integradas têm confirmado que, devidamente 'trabalhadas', as crianças com deficiência mental leve podem surpreender."

A experiência de professores tem demonstrado que, ao buscar recursos educacionais que concretizem os conceitos expostos, toda a classe se beneficia, não apenas o aluno portador de deficiência.

Retomando a idéia de que a "educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida", como dizia Freinet, lembramos que Educação é um processo abrangente e complexo, que ultrapassa a escolarização e que tem, por objetivo final, preparar a pessoa para a vida na família, na escola, no trabalho, no mundo....

É importante que o professor e toda a comunidade escolar (diretor, funcionários, alunos) se lembrem de que todo aluno pode, a seu modo e respeitando seu tempo, beneficiar-se de programas educacionais, desde que tenha oportunidades adequadas para desenvolver sua potencialidade.

Como tratar pessoas com deficiência mental 3

    • Aja naturalmente ao dirigir-se a uma pessoa com deficiência mental;
    • Trate-a com respeito e consideração, de acordo com sua idade;
    • Não a ignore. Cumprimente e despeça-se dela normalmente, como faria com qualquer pessoa;
    • Dê atenção a ela, converse e vai ver como pode ser agradável;
    • Não superproteja. Deixe que ela faça ou tente fazer sozinha tudo o que puder. Ajude apenas quando for realmente necessário;
    • Não subestime sua inteligência. As pessoas com deficiência mental levam mais tempo para aprender, mas podem adquirir muitas habilidades intelectuais e sociais.

É possível prevenir a deficiência mental?

Após a Ciência ter superado a noção de que a deficiência mental é uma doença, estudos têm sido realizados para conhecer os fatores de risco que podem vir a determinar esta condição. Esta mentalidade de prevenção está se instalando gradualmente em todas as áreas da Deficiência, além da mental. Isso é muito importante, porque a Organização Mundial de Saúde estima que aproximadamente 30% dos casos de deficiência poderiam ser evitados, se medidas adequadas de prevenção fossem adotadas.

A origem da condição de deficiência mental é complexa, pois envolve múltiplos fatores. Assim sendo, conhecê-los e identificá-los é fundamental, para que programas de prevenção possam ser estabelecidos. Porém, é importante lembrar que:

    • Muitas pessoas expostas a condições de risco não apresentam deficiência mental;
    • Muitas vezes, ainda não é possível identificar qual foi o fator causal da deficiência, infelizmente.
    • Recorrendo mais uma vez à autoridade da Organização Mundial de Saúde, aprendemos que a prevenção pode acontecer em três níveis:
    • Prevenção primária: medidas que podem ser tomadas antes de o fato acontecer;
    • Prevenção secundária: medidas que reduzem a duração dos problemas já existentes ou revertem seus efeitos;
    • Prevenção terciária: medidas voltadas para possibilitar o desenvolvimento da potencialidade da pessoa com deficiência mental, diminuindo defasagens causadas por esta condição.

A seguir, vamos enumerar algumas medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde4, em relação a estes níveis de prevenção:

Prevenção primária

As medidas de prevenção primária visam diminuir a incidência de doenças e causas prováveis de deficiência; seu público-alvo é a população em geral. Elas são de responsabilidade do Poder Público, nas esferas municipal, estadual e federal. Compete aos governantes implantar programas preventivos, que estão garantidos no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente e outros dispositivos legais, fazer campanhas, distribuir material de divulgação e tomar outras medidas semelhantes.

Medidas pré-natais

    • Condições adequadas de saneamento básico;
    • Cuidados especiais em regiões de risco radiativo;
    • Planejamento familiar;
    • Aconselhamento genético pré-natal;
    • Acompanhamento da gestação (saúde e nutrição materna);
    • Diagnóstico pré-natal.

Medidas perinatais 5

    • Atendimento médico - hospitalar de qualidade na situação de parto;
    • Atendimento de qualidade ao recém-nascido;
    • PKU (teste do pezinho).

Medidas pós-natais

    • Condições de saneamento básico;
    • Serviços de puericultura adequados (incluindo campanhas de vacinação);
    • Prevenção de acidentes domésticos.

Prevenção secundária

Este nível de prevenção se refere às medidas que visam reduzir a duração dos problemas existentes ou os seus efeitos. Dirigem-se às pessoas que já apresentam uma deficiência ou manifestam problemas que, se não forem tratados adequadamente, podem resultar em deficiência.

Neste nível de prevenção são oferecidos programas voltados para conter a evolução de doenças que podem causar deficiência mental ou programas de estimulação que visam minimizar as conseqüências de uma situação de deficiência. Podemos citar, como exemplo: diagnóstico precoce, estimulação essencial, orientação de dietas para crianças com fenilcetonúria, leis que determinem a obrigatoriedade de rótulos nos alimentos, alertando para a presença de glúten e seus derivados e outros.

Prevenção terciária

Este nível de prevenção está voltado para as pessoas que já possuem a deficiência mental e visa garantir o pleno desenvolvimento de suas potencialidades, como indivíduos. São exemplos destas medidas: atendimento clínico, atendimento pedagógico (pré-escolar, escolar, preparação para o trabalho etc.).

Apesar de todos os esforços de profissionais e familiares, infelizmente ainda é pouco o que se oferece à maior parte das pessoas com deficiência mental. Segundo alguns estudos, mais da metade dos portadores de deficiência mental não recebem atendimento algum, o que é um índice muito preocupante.

Educação Especial

"A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada, com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho." (Constituição Federal, 19, Capítulo III, art. 205.)

Podemos concluir que, se a Constituição assegura que a educação é um direito de todos, a pessoa portadora de deficiência mental está aí incluída. Esta conclusão é reforçada pelo artigo 208, inciso III, que enfatiza:

"(...) o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino".

Segundo a Profa. Lígia Assumpção Amaral 6 "Compreende-se que, no contexto da Educação Especial, o termo 'educacional' se refere a todo espaço institucional voltado para o desenvolvimento e a aprendizagem do indivíduo. Esse espaço é comprometido com os múltiplos e interdependentes aspectos do desenvolvimento - cognitivo, afetivo, socioemocional - tendo como referência as diferenças individuais e as possibilidades socioeducacionais de seus sujeitos.

Acredita-se que toda criança deve ter o direito de estar inserida em um programa educacional, independente de suas possibilidades de aprendizagem acadêmica, até porque o sentido aqui atribuído ao processo educacional ultrapassa, e muito, os limites impostos a um programa restrito à educação formal, acadêmica.

Todo espaço educacional pressupõe a convivência entre os pares. A possibilidade de conviver, trocar e vivenciar situações do cotidiano é um objetivo implícito no processo de aprendizagem, bem como no desenvolvimento humano."

Direitos iguais/oportunidades diferenciadas

Como assegurar o direito à educação para pessoas que são diferentes?

O Prof. Marcos Mazzota, estudioso desta área, nos ensina que assegurar oportunidades iguais não significa garantir tratamento igual para todos; é preciso oferecer meios adequados às características e necessidades de cada pessoa, para que ela possa desenvolver sua potencialidade. Assim, a escola deve oferecer oportunidades educacionais diversificadas, para assegurar a igualdade de oportunidades de acesso à educação.

Temos presenciado, nos últimos anos, um debate sobre a questão da inclusão das pessoas com deficiência, com ênfase em sua inclusão no ambiente escolar. Os professores, em especial, têm-se deparado com esta questão, que fica mais aguda no caso de alunos com deficiência mental.

Esta questão é realmente complexa e merece ser tratada com cuidado.

Os professores, em geral, fazem perguntas e observações como estas:

    • Como posso receber um aluno com deficiência mental na minha sala, onde há 30 (ou mais) alunos?
    • Não tenho habilitação em deficiência mental.
    • Como os outros colegas vão recebê-lo?

Não pretendemos dar "receitas prontas" ou "soluções mágicas" para estas perguntas, pois não existem. Elas merecem nossa reflexão, pois refletem uma situação que vem mudando ao longo da História. Como o professor faz parte da sociedade e da época em que vive, ele também partilha as opiniões vigentes. Vale a pena, pois, tentar descobrir o que está na raiz destas perguntas.

Preconceito e discriminação

As pessoas com deficiência, especialmente mental, foram perseguidas, maltratadas, segregadas e discriminadas, durante séculos.

A partir do século XIX, esta situação começa a mudar; médicos e educadores interessam-se por estas pessoas e percebem que elas têm capacidade de aprendizagem. Passam, então, a desenvolver métodos educacionais. As atitudes preconceituosas começam a ser revistas.

Para a Cooperativa de Vida Independente de Estocolmo (Suécia), entidade formada por pessoas portadoras de deficiência: " (...) uma das razões pelas quais as pessoas deficientes estão expostas à discriminação é que os diferentes são freqüentemente declarados doentes. Este modelo médico da deficiência nos designa o papel desamparado e passivo de pacientes, no qual somos considerados dependentes do cuidado de outras pessoas, incapazes de trabalhar, isentos dos deveres normais, levando vidas inúteis, como está evidenciado na palavra ainda comum ' inválido' [sem valor, em latim]."7

Integração social

Gradualmente, este conceito tem sido modificado; posteriormente, surgiu o conceito de "integração social", para derrubar a prática de exclusão social a que as pessoas portadoras de deficiência estavam submetidas, em relação a qualquer atividade.

O movimento pela integração social surgiu por volta do final da década de 60 e procurava inserir as pessoas com deficiência no trabalho, na escola, no lazer. A década de 80 impulsionou este movimento; a ONU - Organização das Nações Unidas - decretou 1981 como o Ano Internacional das Pessoas Deficientes; a luta pelos direitos ganhou força.

Em conseqüência das conquistas e da experiência acumuladas neste processo, estudiosos e organizações compostas por pessoas com deficiência começaram a perceber que a prática da integração social era insuficiente para acabar com a discriminação e para garantir a verdadeira participação, com oportunidades iguais.

Isto porque a integração social representa o esforço de inserir o portador de deficiência na sociedade, SE ele estiver capacitado a superar as barreiras existentes. Assim, o esforço era feito apenas por parte do deficiente, sua família e profissionais especializados - a sociedade permanece do mesmo jeito, alterando pouco (ou nada) suas atitudes, espaços físicos e práticas sociais.

É a partir destas constatações que surgem outros conceitos e movimentos, que falam de autonomia, independência, empowerment e equiparação de oportunidades, que foram objeto de normas e resoluções internacionais, como as Normas sobre o Programa Mundial de Ação Relativo às Pessoas com Deficiência (ONU, 1982), a Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (ONU, 1993), entre outros.

De forma geral, podemos dizer que estes conceitos, que apontam para a inclusão social, consideram que a sociedade deve ser modificada para atender às necessidades de todos os seus membros. O desenvolvimento das pessoas com deficiência deve ocorrer no processo de inclusão e não como um pré-requisito para que estas pessoas possam fazer parte da sociedade, como se elas precisassem "pagar ingresso para integrar a comunidade", como diz o Dr. Antonio S. Clemente Filho.

Educação e inclusão no Brasil

Voltando para a questão da Educação no Brasil, podemos constatar que a inclusão de pessoas com deficiência na educação geral está sendo implementada no Brasil há pouco tempo, mas já há discussões e uma significativa produção intelectual sobre este tema, que é bastante desafiador para os educadores.

É consenso que temos um longo caminho a percorrer, por parte da sociedade e da própria pessoa com deficiência, e, principalmente, da portadora de deficiência mental, para que ela possa ser considerada socialmente incluída, ou seja, possa assumir-se como indivíduo, que conhece e aceita suas potencialidades e limites.

Para trilhar este caminho, o ideal é começar o mais cedo possível, no momento em que as relações iniciais são estabelecidas entre a criança e a família e, posteriormente, na escola e na vizinhança. Ora, para construir relações e vivências de caráter inclusivo, é preciso que a diversidade seja aceita, como parte integrante da natureza humana. Até gêmeos são diferentes...

A Profa. Maria Teresa Mantoan 8 nos adverte que:

"A inclusão causa uma mudança de perspectiva educacional, pois não se limita a ajudar somente os alunos que apresentam dificuldades na escola, mas apóia a todos: professores, alunos, pessoal administrativo, para que obtenham sucesso na corrente educativa geral."

Assim, é importante que a diversidade seja aceita com naturalidade e tranqüilidade, desde o momento em que a deficiência é detectada; se a família agir desta forma, a tendência é que "contaminará" as pessoas ao redor.

Como a escola pode se preparar para incluir o aluno portador de deficiência

    • Sensibilizando e capacitando toda a comunidade escolar;
    • Reorganizando seus recursos materiais e físicos;
    • Sensibilizando os pais de alunos deficientes e não deficientes, sobre a questão da inclusão;
    • Envolvendo entidades e órgãos da comunidade no processo da inclusão.

Vale a pena enfatizar a importância da comunicação entre a escola e a família da criança portadora de deficiência. Para isso, reproduzimos as palavras de Maria Salomé Soares Dallan, mãe de uma criança surda e aluna do curso de Pedagogia da PUC/Pontifícia Universidade Católica de Campinas, SP:

"Hoje, na tentativa de assegurar a permanência de algumas crianças com necessidades especiais no ensino regular, percebo mais fortemente a importância de um trabalho junto às mães da população de baixa renda, uma vez que pobreza, infelizmente, está associada à falta de escolaridade e de acesso a determinadas informações, visando ao esclarecimento acerca da deficiência de seus filhos. Em meu dia-a-dia, tenho encontrado desde mães que acham que o problema de seu filho não tem solução, àquelas que acham que seu filho não tem problema algum, o que é muito mais grave. Os pais que não aceitam a deficiência de seu filho e nem acreditam em sua capacidade para superar as limitações, impedem que este tenha acesso à estimulação e ao atendimento educacional especializado."9

Benefícios da educação inclusiva para todos os estudantes 10

Estudantes com deficiência:

    • Desenvolvem a apreciação pela diversidade individual;
    • Adquirem experiência direta com a variação natural das capacidades humanas;
    • Demonstram crescente responsabilidade e melhorada aprendizagem através do ensino entre os alunos;
    • Estão mais bem preparados para a vida adulta em uma sociedade diversificada, através da educação em salas de aula diversificadas;
    • Freqüentemente experenciam apoio acadêmico adicional da parte do pessoal de Educação Especial;
    • Podem participar como aprendizes sob condições instrucionais diversificadas (aprendizado cooperativo, uso de tecnologia baseada em centros de aprendizagem etc.).

Estudantes sem deficiência:

    • Têm acesso a uma gama mais ampla de modelos de papel social, atividades de aprendizagem e redes sociais;
    • Desenvolvem, em escala crescente, o conforto, a confiança e a compreensão da diversidade individual deles e de outras pessoas;
    • Demonstram crescente responsabilidade e crescente aprendizagem, através do ensino entre os alunos;
    • Estão mais bem preparados para a vida adulta em uma sociedade diversificada, através da educação em salas de aula diversificadas;
    • Recebem apoio instrucional adicional, por parte dos profissionais da Educação Especial;
    • Beneficiam-se da aprendizagem sob condições instrucionais diversificadas.

Analisando os benefícios que a Educação Inclusiva pode trazer para todos os envolvidos, portadores ou não de deficiência, podemos concluir que eles apontam para as seguintes práticas, que são benéficas para todos:

    • Aprendizado cooperativo;
    • Instrução baseada em projeto/atividade;
    • A Educação deve reconhecer e ensinar pessoas de várias culturas, com inteligências múltiplas e envolvendo diferentes estilos de aprendizagem;
    • A Educação deve contribuir para a construção do "senso de comunidade" nas salas de aula e nas escolas como um todo.

Sugestões para adaptar salas comuns para receber alunos com deficiência

    • Todos os estudantes, não importa se tiverem deficiência ou não, irão beneficiar-se de aulas que se basearem menos em livros e mais em experiências e vivências, que forem mais cooperativas e mais multissensoriais.
    • Se for necessário adaptar o espaço físico da sala para receber alunos com deficiência, estas adaptações devem ser feitas com o máximo de boa vontade e hospitalidade. Na maioria das vezes, estas adaptações também irão beneficiar os alunos não deficientes. A deficiência não deve ser apontada de uma forma constrangedora, não deve ser enfatizada nem ignorada.

Para estudantes com deficiência mental, medidas como estas podem ser proveitosas:

    • Adotar o sistema de "companheiro", ou seja, envolver os colegas com o processo de aprendizagem do aluno portador de deficiência mental;
    • Formar grupos cooperativos de aprendizagem;
    • Contar histórias e utilizar materiais para ensinar conceitos abstratos;
    • Preparar versões simplificadas do material didático;
    • O professor deve evitar o "discurso do não", que enfatiza o que o aluno não pode, não sabe, não faz. É importante fazer um investimento pedagógico nas possibilidades de aprendizagem do aluno.

A deficiência mental e as novas tecnologias

Ao ingressarem na escola, seja regular ou especial, as crianças com deficiência mental freqüentemente vivem situações que reforçam uma postura de passividade diante do ambiente. Assim, ao invés de serem educadas para exercitar a independência e a autonomia, na medida de suas possibilidades, desenvolvem atitudes de dependência e submissão.

É exatamente pelas dificuldades e atrasos que estes alunos apresentam em seu desenvolvimento global que é necessário oferecer-lhes um ambiente de aprendizagem onde sua criatividade e iniciativa possam ser estimuladas e valorizadas, permitindo maior interação com as pessoas que os rodeiam e seu meio ambiente.

Dentre os recursos educacionais à disposição, gostaríamos de destacar o computador, que está se tornando, cada vez mais, um instrumento presente no nosso quotidiano.

Segundo o Prof. Fausto José Villanova, que leciona Música e Informática para alunos deficientes auditivos, visuais, mentais e físicos no Instituto N. S. de Lourdes, na cidade do Rio de Janeiro11, "A Informática, hoje tão presente em, nossas vidas, é extremamente necessária aos portadores de necessidades educacionais especiais. (... necessário que a comunidade escolar, o corpo docente, a família e os próprios alunos tenham consciência da importância de sua participação efetiva nesta nova área, que engloba a educação, a tecnologia e o mercado de trabalho".

O Prof. Fausto divide a utilização da Informática nas seguintes modalidades:

1. Informática educativa

Ela visa desenvolver o raciocínio lógico, a percepção, a coordenação motora, a noção de lateralidade, o reconhecimento de espaço, noções de conhecimentos gerais, estímulos visuais e auditivos, estímulos competitivos e cooperativos, aquisição de conhecimentos e outras habilidades.

O ideal é que o aluno tenha acesso à Informática desde a pré-escola, através de jogos educativos. O computador também pode atuar no reforço escolar.

2. Informática musical

Utilizando um software para visualizar as freqüências sonoras, o aluno consegue distinguir sons graves, médios e agudos, facilitando a aprendizagem de um instrumento musical.

3. Informática de parceria

Nesta modalidade, a família tem acesso às aulas de seus filhos, havendo uma troca entre os softwares educativos usados em sala de aula e os utilizados em casa, permitindo que a família reveja os conteúdos ministrados em sala de aula.

4. Informática participativa

Visa estimular a navegação na Internet, estimulando o aluno a participar de fóruns e debates.

5. Informática integradora social

Permite aos alunos atuar de forma produtiva, criativa e eficiente na realização de trabalhos, utilizando o computador. Assim, a pessoa com deficiência pode provar sua capacidade de realização, muitas vezes posta em dúvida, devido a preconceitos.

6. Informática de comunicação

Vários softwares são desenvolvidos, no Brasil e em outros países, visando facilitar a aprendizagem e a comunicação de pessoas com paralisia cerebral, deficiência visual ou outras necessidades especiais.

7. Informática terapêutica

Esta modalidade beneficia especialmente alunos com deficiência física e auditiva, que utilizam o computador como uma "prótese" de comunicação. Esse processo acontece em função da interação terapeuta/paciente/computador.

8. Informática profissionalizante escolar

Tendo o professor como orientador, o aluno pode atuar como monitor no laboratório de informática ou como auxiliar de outros professores no preparo de aulas e testes.

Importa ressaltar que já há experiências sobre a utilização da Informática com alunos portadores de deficiência mental, com resultados positivos, como os obtidos pela equipe do NIED - Núcleo de Informática aplicada à Educação, da UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas.12

A transição da escola para o trabalho

"Toda sociedade que exclui pessoas do trabalho por qualquer motivo - sua deficiência ou sua cor ou seu gênero - está destruindo a esperança e ignorando talentos. Se fizermos isso, colocaremos em risco o futuro."

Robert White, 1994.

Constatamos que, gradualmente, o mercado de trabalho está mais receptivo às pessoas com deficiência. Porém, ainda há muito a ser conquistado, especialmente quando tratamos com pessoas portadoras de deficiência mental. Em geral, a carga de preconceitos e discriminação que recebem é maior que a recebida por portadores de deficiência física, auditiva ou visual.

Além disso, a família também contribui para esta situação, pois tem uma forte tendência a proteger o filho dos preconceitos sociais, tratando-o como uma "eterna criança", tentando prolongar a infância e adiando a passagem para a vida adulta. Às vezes, os profissionais das escolas e das oficinas também adotam este comportamento.

Ao assim fazerem, eles estão prejudicando o portador de deficiência mental e não o ajudando, pois ele não conquistará a autonomia possível desta forma; ao contrário, será sempre dependente dos que o rodeiam.

Ao atingir a adolescência, é fundamental que a escola e a instituição busquem alternativas de propostas pedagógicas de atividades adequadas a sua idade cronológica e que possibilitem conquistar a maior autonomia possível e independência em relação ao seu meio ambiente.

Há diversas modalidades de trabalho para a pessoa com deficiência mental: em empresas, desempenhando trabalhos de cunho repetitivo, na equipe de jardinagem, limpeza, como office boy interno; em oficinas ocupacionais, na área rural ou em iniciativas familiares.

O fundamental é que a dignidade da pessoa seja preservada, ou seja, o trabalho que ela executa deve ser remunerado, o ambiente deve ter condições adequadas de salubridade e o tratamento deve ser respeitoso.

Na área do trabalho o "discurso do não" também deve ser evitado: podemos testar possibilidades de trabalho, testar recursos atuais, como a informática, antes de decidir se determinado trabalho pode ou não ser desempenhado por portadores de deficiência mental. Como exemplo, podemos citar o Zoológico do Rio de Janeiro, que contratou jovens com deficiência mental leve para trabalhar na cozinha, preparando alimentos para os animais. Cada espécie animal precisa que o alimento seja cortado sempre do mesmo jeito. Muitos profissionais não deixariam que portadores de deficiência mental usassem facas, mas a experiência tem demonstrado que eles são cuidadosos e não sofreram acidentes.

Assim, a escola deve estar atenta à modernização e à diversidade, adotando uma atitude positiva, com o compromisso de valorizar a potencialidade individual e preparando seus alunos para a vida adulta.

NOTAS:

* Socióloga. Gerente da Rede SACI - Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação (www.saci.org.br). Consultora desta série.

    1. Fonte: Cadernos da TV Escola - Educação Especial. Deficiência mental. Brasília, SEF/MEC, 1998, p. 9.
    2. Op. Cit., p. 37.
    3. Folheto "Quando você encontrar uma pessoa deficiente...", publicado pelo CEDIPOD- Centro de Documentação e Informação do Portador de Deficiência.
    4. In Cadernos da TV Escola, op. cit., p. 11 e 12.
    5. Estas medidas correspondem ao momento do parto.
    6. Cadernos da TV Escola. Deficiência mental e deficiência física. Brasília, MEC/Secretaria de Educação a distância, 1998, p. 13.
    7. STIL. Independent living: a Swedish definition. In: RATZKA, Adolf. Tools for power. Estocolmo: Independent Living Committee of Disabled Peoples' International, 1990, p. 30.
    8. MANTOAN, Maria Teresa Egler. A integração de pessoas com deficiência: contribuições para uma reflexão sobre o tema. São Paulo, Memnon/SENAC, 1997, p. 145.
    9. Dallan, Maria Salomé Soares. Fazendo do problema um desafio. In: Revista Integração, v. 13, p. 51, 2001.
    10. Fonte: Programa da ONU em Deficiências Severas, 1994.
    11. "As diversas utilidades da informática, sua importância e influência no desenvolvimento, na educação, terapia, comunicação, integração e socialização dos portadores de necessidades especiais", Revista Integração, v. 13, n. 23/2001, p. 20-23.

VALENTE, José Armando. (org.). Liberando a mente: computadores na educação especial. Campinas: UNICAMP, 1991. E também: Computadores e conhecimento: repensando a educação. Campinas: UNICAMP, 1993.

 

    1.