HISTÓRIA E IDÉIAS PEDAGÓGICAS DA

COMPANHIA DE JESUS

(OS JESUÍTAS)

 O objetivo dos jesuítas ao fundar sua congregação, a Companhia de Jesus, faz jus ao espírito de seu fundador, que era militar convertido ao catolicismo. Inácio de Loyola era seu novo nome, tinha como princípio formar um exército de Cristo, formar bons soldados da igreja de Roma, capazes de combater na Europa a heresia e os rebeldes no resto do mundo, isto é, converter os pagãos. Havia, portanto, determinação em atuar na educação desses bons soldados, a fim de purificá-los do mal. Dessa forma, os alunos deveriam passar por uma reciclagem intelectual e científica para combater os vícios e os pecados, incluindo programas de aprofundamento das matérias escolares...

No início, a aristocracia não atribuía aos jesuítas o ensino da elite. Eram chamados a propiciar a educação dos mais pobres, entendida como uma obra de caridade, particularmente nas colônias de Portugal.

Este ensino não seria um ensino para todos, era um ensino elitista ou aristocrático e ensinar os ignorantes a ler e escrever seria uma obra de caridade, portanto a preocupação básica no início da ordem era

 

com aqueles que não detinham o poder econômico e político na Europa.

A história dos jesuítas é cercada de ambigüidades. Uma delas, talvez a mais marcante, é sua expulsão das colonias e centros de educação a nível mundial no século XVIII, em um momento onde a filosofia moderna inicia sua radical transformação ideológica, particularmente no campo pedagógico.

A ambigüidade consiste em considerar, por um lado, que a principal razão da expulsão dos jesuítas do campo educacional, pela igreja, foi fruto da insubordinação à autoridade papal, graças a sua inovação em querer aplicar idéias modernas aos conteúdos humanísticos, tendo da filosofia tradicional, tendo inclusive, Descartes como um de seus alunos, como se estivesse violando os dogmas católicos. Por outro lado, há a acusação política do poder aliado da Igreja, especialmente do Marquês de Pombal, em Portugal, à Ordem, por propagar os ideais pedagógicos exclusivamente do catolicismo tradicional, em detrimento de uma educação democrática e pluralista gestada pela filosofia moderna.

Pode-se, então, indagar: qual foi realmente o papel da educação católica, em especial dos jesuítas, no processo de transição da educação tradicional para a educação e as ciências modernas?

Recorreremos à história para tentar responder à questão. Neste sentido, é importante levantar alguns dados históricos da Companhia de Jesus, que nos ajudam a entender os objetivos educacionais e a filosofia de educação da Igreja católica defendida por várias Ordens, sem dúvida, a mais influente de todas no que tange ao projeto educacional.

A Companhia de Jesus foi fundada em 1534, na Espanha, por Inácio de Loyola, ex-combatente de guerra nascido em 1491, na cidade de Loyola, na Espanha. Foi aprovada pelo Papa Paulo III, em 1540.

Logo no início da Companhia, o rei D. João III, de Portugal - um dos maiores impérios colonizadores do Ocidente - chamou os jesuítas para ocupar-se da educação daquele reino. O diretor do Colégio de Santa Bárbara em Paris indicara ao rei a existência de um novo grupo de clérigos que considerava aptos para converter toda a Índia. Santo. Inácio de Loyola acedeu ao convite do rei português e enviou para Portugal, em 1540, dois dos seus primeiros educadores: o navarro Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues. O primeiro partiu no ano seguinte para a Índia, enquanto o segundo ficou na Europa, lançando as bases da educação na Província de Portugal.

O crescimento da Companhia de Jesus em Portugal foi rápido, sendo responsável pelo surgimento de vários colégios e universidades. Em 1542, foi fundado, em Coimbra, um colégio interno (só para seminaristas), para formação dos membros mais novos da Ordem. O primeiro colégio em que os jesuítas ministraram aulas públicas, não só para vocacionados ao sacerdócio, foi o de Santo Antão, em Lisboa, inaugurado em 1553. Em 1559, foi fundada a Universidade de Évora e, progressivamente, a atividade pedagógica dos jesuítas foi se estendendo às principais cidades do país, como a de Braga (1560), a de Bragança (1561), a do Porto (1630), entre outras. Os jesuítas chegaram a dirigir trinta estabelecimentos de ensino, formando a única rede escolar orgânica e estável do país. O ensino era gratuito e aberto a todas as classes sociais; a Companhia só começava uma nova escola quando houvesse uma dotação ou fundação que assegurasse os meios necessários para o seu funcionamento.

Em 1542, Francisco Xavier desembarcou em Goa depois de percorrer vastas regiões da Índia, chegando ao Japão em 1549. Após sua morte, em 1552, a evangelização do Oriente continuou, a cargo de sucessivas levas de missionários que diversificaram as regiões alcançadas, começando em Macau (1565) até Laos (1642). Na África, os jesuítas chegaram no Congo, em 1547, fixando-se ao longo dos anos em diversas outras cidades. Em 1604, iniciaram a missão de Cabo Verde, e depois à Guiné e Serra Leoa. A primeira expedição ao Brasil, foi em 1549.

A todas as regiões, os jesuítas levaram a sua prática pedagógica. Principalmente no Brasil, fundaram uma rede de colégios, seminários e escolas primárias e confessionais, com ensino gratuito sustentado por explorações agro pecuárias e outras propriedades legadas para patrimônio dos centros de ensino. O principal expoente jesuíta no Brasil foi José de Anchieta.

A partir de 1756 foi nomeado pelo rei D. José I, para Secretário de Estado dos Negócios do Reino, então o mais alto cargo da estrutura governamental, Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal. Suas sucessivas medidas passam a reduzir gradativamente o poder de ação dos jesuítas em Portugal e nos domínios ultramarinos, sobretudo no Brasil. Em 1759, o domínio jesuítico na educação foi interrompido, principalmente por decisão de Pombal, que se empenhou em decretar oficialmente a expulsão dos jesuítas de todos os territórios portugueses. As causas desta decisão parecem ser de natureza político-ideológica e política, graças às filosofias educacionais da Modernidade que tinham em Pombal um fiel defensor.

A Companhia de Jesus era um obstáculo aos ideais e ao projeto político moderno, que se pretendia implementar na época, mais centralizado no Estado. Era o sistema absolutista, iluminado, que Pombal queria impor, indiferente à resistência das forças sociais que rechaçavam a Modernidade.

Dominando o sistema de ensino em Portugal e no Ultramar, vinculados por uma ligação especial a Roma e possuidores de um grande influxo cultural, os jesuítas formavam um corpo facilmente visto como ameaça para um sistema absolutista que ambicionava controlar todos os aspectos da vida social, incluindo uma Igreja mais submetida ao Estado. Se a esta moldura ideológica, juntarmos a apetência pelo patrimônio considerável de posse dos jesuítas, teremos reunidas as condições para o desencadear da perseguição.

A campanha antijesuítica levou à formulação de uma série de acusações publicadas em toda a Europa. A luta de Pombal contra a Companhia de Jesus não se limitou aos domínios da Coroa portuguesa. Prolongou-se, em conjunto com as cortes bourbônicas, até alcançar o fim pretendido: a extinção da Companhia de Jesus, em 21 de julho de 1773. Por um breve (decreto), o Papa Clemente XIV decreta ou que a Companhia de Jesus deveria ser dissolvida em todo o mundo. A Prússia e a Rússia Branca recusaram a ordem papal, tornando-se os principais focos de exílio dos jesuítas.

Entre as principais acusações feitas aos jesuítas, encontravam-se a resistência dos mesmos à aplicação do Tratado de Madri, celebrado entre Portugal e Espanha para a delimitação de fronteiras na América do Sul; a oposição, no Brasil setentrional, às leis que regulavam a administração das aldeias de índios; o exercício de atividades comerciais proibidas a religiosos; a decadência dos jesuítas portugueses; a difamação do rei no estrangeiro; e a participação, pelo menos moral no atentado contra D. José e na revolta popular do Porto ocorrida em 1757. Apesar deste acervo de acusações, o único jesuíta a ser objeto de julgamento formal foi Gabriel Malagrida, italiano, acusado de heresia e condenado à morte, em 1761.

A restauração ou volta dos jesuítas começa inicia-se em 7 de agosto de 1814, após as Revoluções modernas, com a autorização do Papa Pio VII, fundamentado nos benefícios de sua experiência educativa. Embora, posteriormente, tornassem a ocorrer outras perseguições e expulsões dos inacianos de vários países do mundo, ao longo do século XIX, devido à resistência da Igreja em acatar as mudanças das revoluções modernas, a volta dos jesuítas proporciona o reinicio das suas atividades educativas, ainda que sem a originalidade da Companhia antiga: os colégios passam aos poucos a ser confessionais e privados e os religiosos inserem-se na missão com trabalhadores de fábricas, embora com métodos da época, hoje considerados paternalistas (círculos de trabalhadores, obras sociais, editoras, escolas populares etc.). A Companhia continua o esforço de pesquisa e publicação em todos os campos das ciências, artes e letras, e participa da nova atividade missionária da Igreja e educando as elites tradicionais com seus colégios e faculdades privadas. Entre os colégios destacam-se os de Campolide e São Fidel, em Portugal. Além de importantes como estabelecimentos de ensino, tornaram-se também centros de intensa atividade científica, através de inúmeras publicações. Em São Fidel, foi fundada em 1902 a revista Brotéria, assim denominada em homenagem ao naturalista português Avelar Brotero. Eram os professores dos colégios que dirigiam a revista, publicando nas suas páginas artigos de investigação, com destaque para as áreas de botânica e zoologia.

Na realidade, a atuação dos jesuítas no século passado estava diretamente relacionada às conjunturas políticas, alterando-se de acordo, com as oscilações dos governos - conservadores ou liberais. A maioria dos católicos identificava sua fé com o antigo regime (monárquico) e muitos jesuítas participavam dessa mentalidade. Quando os governos eram conservadores, os jesuítas eram chamados e exaltados; quando os liberais subiam ao poder, eles eram novamente perseguidos e exilados.

1. Os jesuítas e a educação

A Companhia de Jesus, portanto, se institui na história com uma missão religiosa. A ação na educação é conseqüência de circunstâncias sociais e políticas do século XVI, época caracterizada por divisão e conflito dentro da Igreja. Sacudida pela Reforma Protestante, ocorrida no século anterior, tomou consciência do abandono espiritual em que se encontrava o povo cristão. Tal constatação levou a Companhia a dar uma resposta aos desafios proporcionados pela Reforma, atuando em três campos, a saber: o primeiro - o serviço ao povo, na defesa e propagação da fé católica. Nesse contexto, os primeiros jesuítas dedicaram-se aos ministérios sacerdotais tradicionais (pregação, confissões, catequese...), junto com novas iniciativas e estratégias pastorais: os Exercícios Espirituais, as Missões Populares, Associações de Leigos, e o uso do teatro na pregação, liturgia e catequese. Inicialmente a educação não era o principal objetivo.

O segundo foi a propagação dos ideais pedagógicos católicos nos territórios desconhecidos. Aproveitando o esforço expansionista dos grandes impérios da época (Espanha e Portugal), os jesuítas se fazem presentes, desde a primeira hora, nos novos mundos que se abrem à atividade missionária.

O terceiro foi a atividade educativa católica e científica da juventude. Imprevista ao nascer a Companhia, essa atividade tornou-se logo a principal tarefa dos jesuítas. A gratuidade do ensino da antiga Companhia favoreceu a expansão dos colégios. A ação pedagógica muda a idéia original de seu fundador. Esta atuação é que nos interessa abordar. A Companhia de Jesus, aliada aos colonizadores, que, pela expansão das fronteiras geográficas, com a descoberta da América e abertura de novas rotas comerciais na Ásia, descentralizam o saber da Europa. Estes fatos, somados com a pedagogia jesuíta, possibilitaram uma revolução no campo das ciências e das letras.

A Companhia de Jesus, passa a ter como tarefa a educação da juventude, pois para eles os adultos já tinham as almas perturbadas, enquanto os jovens poderiam converter-se ao cristianismo. Foi assim que se espalharam pelo mundo, colocando-se a serviço da educação, formando escolas e trazendo para o interior da Igreja Católica novas vocações e sacerdotes das colônias européias de influência católica.

2. Os espaços pedagógicos da Companhia de Jesus

A Reforma Protestante do século XV colaborou, intensamente, para que a Igreja Católica, com receio de perder seu terreno de influência sobre as almas para suas opositoras, as igrejas protestantes, luterana na Alemanha e calvinista na Inglaterra, passasse a investir massivamente na evangelização - cujo instrumento mais poderoso era, sem sombra de dúvida, a educação. Com efeito, o enorme investimento católico no ideal educativo deveu-se não só à cumplicidade que aliava a igreja aos interesses coloniais dos impérios monárquicos, em especial os impérios espanhol e português, através de um projeto de educação que consistia em formar o homem, emancipando-o por meio da razão e da cultura; mas também decorreu, e talvez predominantemente, de um ideal religioso de salvação das almas, especialmente das populações autóctones das colônias européias. É neste contexto que se dá o surgimento dos jesuítas, em que a educação tinha o objetivo de prestar estes serviços à Igreja. A salvação ou educação das almas deve ser entendida, aqui, como o aprendizado religioso dos alunos para sua conversão ao cristianismo católico.

Suas atividades organizavam-se através de três tipos básicos de estabelecimentos. Os locais para a educação, para a catequese e para os retiros; assim

...para a educação, as casas, residências, colégios e seminários; para a catequese, as aldeias missioneiras; para tratamento e retiro, as casas de recuperação ou quintas de repouso... e os hospitais; e para a preparação religiosa, os noviciados, de onde saíram as levas de soldados para seus exércitos.

Os estabelecimentos inacianos recebiam subvenções e concessões da Coroa e esmolas do povo, por isso, em pouco tempo criaram uma sólida base econômica para seu sustento, com fazendas, engenhos e currais. Para atender às suas necessidades, os jesuítas tinham sempre em seus quadros uma grande quantidade de profissionais, mestres-de-obras, arquitetos, engenheiros, pedreiros, entalhadores, oleiros, ferreiros, ourives, marceneiros etc. E dispunham também de grandes escritores, músicos, pintores e escultores.

Onde quer que fossem, os inacianos ministravam sempre aulas, de catequese, de ler, de escrever e de gramática, em locais que chamavam de casas, pois colégios eram os estabelecimentos que tinham vida econômica própria e do qual dependiam outros, situados nas proximidades.

Nas colônias onde atuavam, não ficavam apenas nas cidades ou vilas principais, embrenhando-se pelos sertões e matas em busca dos índios. Estes eram então reunidos em aldeias de três tipos: as dos Colégios, as de El-Rei e as de Repartição, as que forneciam índios para a própria Companhia, para o rei e para particulares, respectivamente. Havia também as Missões, ou grandes aldeamentos, situadas em terras mais distantes, nos sertões, e nas selvas.

Do ponto de vista arquitetônico, as principais cidades coloniais foram estabelecidas sob o signo de três poderes: o civil, o militar e o religioso. O primeiro, tinha suas representações nos Palácios de Governo, Casas de Câmara e Cadeias; o militar, nas fortificações; o religioso, com suas igrejas, conventos, mosteiros e colégios. No Brasil, por exemplo, ocupou o lugar de maior destaque e suas obras, entre todas, são as mais significativas nos núcleos primitivos das cidades, principalmente no contexto urbano de Salvador.

Os Colégios da Companhia transmitiam aos educandos uma cultura humanística de caráter acentuadamente retórico, atendendo aos interesses da Igreja e às exigências do patriarcado. Assim, os mais importantes intelectuais da Colônia estudaram nestes colégios.

3. O método pedagógico jesuítico - Ratio studiorum

A morte de Inácio, em 31 de julho de 1556, suscita questionamentos com relação à atividade didática dos jesuítas e pouco tempo depois os superiores da Ordem elaboram um documento, publicado em sua última versão em 1599, baseado nas Regras do Colégio Romano, ao qual intitulam Ratio Studiorum - Plano de Estudos, que consta de um

...currículo básico e princípios pedagógicos gerais comuns a todos os colégios da Companhia, é um manual para ajudar os professores e dirigentes na marcha diária dos Colégios. ...uma série de regras ou diretrizes práticas que tratam de assuntos como a direção dos colégios, a formação e distribuição dos professores.

O Ratio Studiorum dos jesuítas, introduzindo e consolidando um "sistema" integrado para seus colégios, criou o primeiro sistema educacional unificado que o mundo conheceu.

Neste pequeno esboço do método jesuítico de educação, destacamos alguns elementos que nos ajudam a entender tal pedagogia.

Os protestantes, após a reforma, como já mencionamos, viam a importância da escola e constituíram um método denominado Rationes Studiorum. Seus trabalhos demonstravam que o humanismo poderia ser perfeitamente compatível com um cristianismo militante. Este fato exerce influência nos jesuítas, que, por sua vez, criam assim o seu método para o professor católico, distinguindo-se do protestantismo pelo caráter seletivo obrigatório, em todos os pormenores de horários, programas etc.

A experiência pedagógica dos Jesuítas sintetiza-se num conjunto de normas e estratégias, chamado "Ratio Studiorum", que visava à formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo.

Aplicam de forma centralizada o método à escola com uma irradiação impressionante que o procedimento ficou conhecido como "autoritário", sendo a autoridade fundada num conhecimento aprofundado da alma humana e especialmente da psicologia da infância e da adolescência. Porém, segundo o Pe. Leonel Franca, esta autoridade é compensada pela ponderação que respeita o progresso do conhecimento e não violenta o ritmo da evolução humana.

Como vimos na introdução, Ratio significa ordem, Studiorum estudos, a ordem dos estudos, ou método de ensino. Suas características principais eram a cooperação hierárquica das pessoas do colégio em todos os níveis; o conhecimento da alma infantil e a compreensão das relações que devem-se estabelecer entre professor e aluno, primeiro como guia, conselheiro ou treinador, mais do que o magister da palavra definitiva. O Ratio indicava:

  • A utilização dos sentimentos de amor-próprio ou emulação - competições educativas entre os alunos. Tais competições abrangiam o uso dos exercícios coletivos, a divisão das classes em campos opostos, como, por exemplo, entre romanos e cartagineses; no sistema de notas, de recompensa e de distribuição de prêmios ou medalhas. Estas competições (emulações) estimulavam os estudos, como nos diz o Pe. Leonel Franca em sua obra sobre o Ratio:

...a vida é uma concorrência contínua. Desde os prêmios científicos e louros literários até as taças de campeonatos desportivos, desde as condecorações militares até as medalhas das exposições industriais ou agrícolas, todas as atividades do homem que vive em sociedade sentem-lhe o aguilhão poderoso, impulsionador de iniciativas fecundas e benfazejas. A emulação foi e será sempre um dos estímulos mais ativos ao aperfeiçoamento e progresso do homem. Os jesuítas o compreenderam e, com rara felicidade, aplicaram à formação da juventude.

  • A Orientação aos professores. Cada colégio tinha a sua academia docente, hierarquicamente organizada, onde os professores eram orientados pelos padres, sendo os dirigentes eleitos pelos próprios membros.
  • Que nos conteúdos fossem enfocadas primeiro as letras latinas e gregas, depois as ciências. Imitação dos antigos praelectio (prae-legere), que significa explicação dos autores ou pré-leitura. O texto do autor deve falar com lábios de carne, transformando o abstrato em concreto, o ditado é ensino morto, o aluno deve ser ouvinte atento do mestre...
  • A utilização do teatro escolar como recurso pedagógico, a ponta de lança da educação jesuítica, não era jogo nem distração; nele nenhum personagem podia vestir-se de mulher e o seu texto deveria ser interpretado na língua latina, em qualquer parte do mundo. Neste aspecto os franceses violaram a norma, utilizando sua língua pátria na educação.

Sobre o teatro dos jesuítas usado como método pedagógico, Francis Bacon, que também exerceu grande influência em Locke, nos diz:

As declamações teatrais de alunos dos jesuítas fortalecem a memória, educam a vós, apuram a dicção, aprimoram os gestos e as atitudes, inspiram a confiança e o domínio de si, habituam os jovens a enfrentar o olhar das assembléias.

  • Quanto ao horário, que fossem dadas 5 horas de aula por dia, sendo duas horas e meia de manhã e duas e meia à tarde.
  • Que a organização da aula deveria estruturar-se como uma pequena sociedade. A pedagogia adquiria conceito de ativa, onde cada estudante tinha uma função a desempenhar; sobre isso, o texto do Pe. Leonel Franca resume todo o espírito do método e de suas respectivas regras, evocando a unidade de professor, unidade de método, unidade de matéria, unidade de autor da mesma matéria.

Unidade de direção, corpo e professores animados nos mesmos princípios, formados na mesma escola, visando aos mesmos fins, empregando os mesmos meios. Eis a unidade e concentração completa e a forma do ratio studiorum.

  • A preleção como o centro da didática, significando uma explicação antecipada do que o aluno deveria estudar ou uma espécie de programa de estudos.
  • O ensino religioso como o centro da formação do método. Para eles o homem não é só um animal cujo organismo deve-se desenvolver sadiamente, nem a inteligência, por si só, torna o homem feliz. O ser humano para os jesuítas era um ser com destinos sobrenaturais; daí, uma educação que ignorasse este aspecto não seria uma educação humana. O ensino religioso era obrigatório.

É importante lembrar que a educação do século XVI era totalmente voltada para a formação de uma civilização moldada nos padrões católicos europeus; os jesuítas tinham como base a catequese dentro da escola com os princípios religiosos. Não havia possibilidade de escolha, as disciplinas religiosas eram obrigatórias e com o mesmo peso das outras. O método tinha como orientação filosófica a teoria de Aristóteles e Santo Tomas de Aquino (1227-1274). A

filosofia básica era a escolástica teocêntrica, com influência do tomismo, onde a natureza e o homem estavam subordinados aos princípios do Deus de origem judaico-cristã. Assim o Ratio definia de forma clara que em questões de alguma importância não se afaste de Aristóteles... De Santo Tomas, fale sempre...

O princípio norteador do Ratio era global, não havia ainda os ideais pedagógicos dos nacionalismos quando o método foi criado; pretendia uma consciência de homem cristão não apenas nacional, mas universal. No Ratio, a metodologia era entendida como os processos didáticos adotados para a transmissão de conhecimentos, a fim de unificar o sistema de ensino da Ordem. Mesmo assim, não houve um padrão único universal para o trabalho de formação das almas, pois muita coisa teve que se adaptar às circunstâncias culturais de cada povo.

Por fim, ressaltamos que toda a educação dos jesuítas objetivava a educação das almas, entendida como formação do homem para uma vida cristã. Como já visto, este era o princípio básico de toda a elaboração pedagógica expressa em seu método.

Mesmo com tal objetivo doutrinário, o método Ratio Studiorum foi elogiado por René Descartes - ex-aluno dos jesuítas, embora discordando dos conteúdos, já que este autor é considerado um dos precursores das ciências modernas e de teorias que se opunham radicalmente à idéia da Igreja católica sobre as ciências.

O confronto desta concepção, expressa no Ratio, com as ciências modernas possivelmente irá iluminar a evolução do pensamento filosófico da Modernidade. O surgimento do antropocentrismo - a salvação do homem versus salvação da alma - marcará o Iluminismo que, confrontando-se com a concepção teocêntrica que situava a absoluta soberania da natureza e de Deus, irá subordiná-la à inteligência ou à razão expressas nas ciências modernas.

Neste sentido, as palavras de Pedro Maia tentam sintetizar a relação deste método com os conflitos da Modernidade com a seguinte afirmação:

O Ratio studiorum foi formulado sob influência da época conhecida como Renascença. O homem da Renascença não é o homem do século XX. Mas os problemas subjacentes da educação são os mesmos: o homem é uma constante e suas faculdades não variam com os séculos... Do século XV à Revolução Francesa, os homens eram devidamente preparados para a vida se estavam bem fundados nas letras, na política e na filosofia. Desde 1800, entretanto, as novas forças de uma verdadeira difusão mundial das ciências e, mais recentemente, dos problemas sociais, exigem uma preparação para além da base lingüística e filosófica.

É importante destacar, aqui, as descobertas científicas de J. Kepler (1571-1638) e Galileu Galilei (1564-1642), que comprovaram que o homem poderia explicar fenômenos até então considerados sagrados, dando início ao poder do homem e sua emancipação para pensar e observar a natureza. O surgimento de novas diretrizes filosóficas, com Descartes, Newton, Locke, Rousseau etc., juntamente com a valorização de novos autores e suas línguas vernáculas, em detrimento dos autores clássicos, vieram conturbar o sistema educacional dos jesuítas e, já no início do século XVIII, começam a decair o prestígio e a aceitação quase mundial da Companhia de Jesus.

A secularização do pensamento, apoiada na razão, assim como a moderna concepção do Estado, que negava a intervenção papal e da Igreja nos assuntos temporais, valorizando a laicização, foram processos que encontraram forte resistência entre os jesuítas, defensores contumazes do poder de tutela da Igreja sobre as atividades do Estado.

Como vimos, a Companhia de Jesus nasceu em meio a uma situação de conflito. Seu fundador queria que fosse um grupo móvel, disponível para acudir as almas nos lugares em que a necessidade fosse maior. Mesmo quando os conflitos entre católicos e protestantes se amenizaram, podemos identificar na história que o surgimento da nova filosofia moderna afetou profundamente os ideais pedagógicos desta instituição.

O surgimento das ciências naturais influencia posteriormente os jesuítas à adaptação do método Ratio Studiorum aos ideais modernos. O período do renascimento da companhia no século XIX já se caracteriza como uma nova filosofia, profundamente influenciada pelos ideais das Luzes, que se estendem até nossos dias, onde o Serviço da fé e promoção da justiça é a expressão mais debatida pelos educadores da Companhia de Jesus que tentam adaptar sua pedagogia aos ideais da modernidade.

4. A educação jesuítica e a idéia de educação para todos

Outro elemento importante que podemos anotar é a relação dos jesuítas com o surgimento da escola pública (escola para todos) no século XVIII. É curioso afirmar, mas parece ser possível pensar que o surgimento da educação para todos tem antecedentes importantes na experiência católica jesuíta. Pode-se então perguntar até que ponto a educação das almas, tal como caracterizamos a finalidade monolítica que perseguia o ensino religioso (em nome da qual todos os demais valores da educação eram excluídos), exerce influência sobre a formação da escola pública? Que conceitos de vida essa educação ajudou a enraizar na formação das populações, particularmente da Europa, e no imaginário religioso? Que contribuições deram com sua escola? Que influências o método de ensino - o Ratio Studiorum - exerceu, e ainda exerce, sobre as relações que as sociedades mantêm com a educação?

A partir dessas indagações, é possível pensar vários aspectos para um estudo destas idéias pedagógicas e as influências da escola católica do período medieval na formação da escola pública dos séculos XVII e XVIII.

Em síntese, dois elementos podem ser citados nesta análise: a educação dos jesuítas aparece como uma corrente de pensamento da escola católica, e sua prática pedagógica possivelmente influenciou os fatos que antecederam o nascimento da escola pública. O outro é a análise das representações, conceitos e noções que fundam a instituição de comportamentos, do método, das finalidades proclamadas de uma escola para salvação das almas, com suas características e contradições.

Para o entendimento destas duas idéias é preciso dizer que Martinho Lutero (1483 -1546), um dos reformadores da igreja católica em 1480, foi um dos primeiros a criar o conceito de educação para todos. Na visão do reformador, que combatia o predomínio do catolicismo tridentino sobre a educação, não se podia mais admitir o controle e a influência do catolicismo sobre as escolas. Para ele a educação tem que ser para todos e popular. É neste sentido que a afirmação de Lutero nos permite supor que havia a idéia e uma luta pela concretização de uma instituição pública não confessional, destinada a prover uma educação abrangente para todos os membros da sociedade. Esta idéia nada tem de atual, remontando a um passado bastante distante e desconhecido. Neste sentido, Gadotti chama a atenção para o fato de que a questão da intervenção do Estado na educação já vinha sendo debatida desde Lutero.

Destarte, não seria demais ousado pensar que, historicamente, o conflito que, no mundo ocidental, divide católicos e protestantes na disputa pela formação ou educação das almas se constitui, especificamente, num eficaz instrumento de promoção da idéia, tanto quanto da realidade, de uma escola entendida como um serviço popular ao público e ao alcance de todos, destituído de influência religiosa e doutrinária, isso já no século XV, e, portanto, muito antes dos teóricos iluministas.

Na América e na África, como se sabe, durante muito tempo, a concepção católica consagrou a imagem do autóctone - do índio, como a do animal que só por meio do batismo adquiria direito a uma alma. Conseqüentemente, se a maior finalidade da ação humana podia ser resumida na participação na obra da salvação, nada haveria de mais grandioso do que o trabalho de catequese através do qual o índio, tornando-se cristão, ganhava, mais do que a alma, uma alma batizada - e, portanto, aberta à redenção. E mais, a alma cristã projetava sobre a vida terrena a sombra de uma nova dignidade: incorporação à sociedade, status civil anteriormente negado ao habitante da colônia.

Tal era o sentido que podia adquirir a tarefa de salvação das almas, pois a missão que coube aos jesuítas deve ser considerada como um supremo reconhecimento concedido à Ordem pelo Papa, reservando para estes religiosos, no início do século XVI, o privilégio de educar os homens e de salvar e acompanhar suas almas. Nesta missão, eminentemente espiritual, ganhava relevo tanto o cuidado com os civilizados que, afastando-se do olhar zeloso da igreja, vinham desterrar-se nas novas terras, quanto o projeto de ganhar para a fé os silvícolas, nativos das terras agora dominadas e invadidas.

No caso do Brasil, uma afirmação dificilmente poderá ser omitida: foram os jesuítas que efetivamente se encarregaram, nos dois primeiros séculos de colonização brasileira, da formação, tanto dos educadores como dos educandos. Ressalte-se, porém, o caráter eminentemente público que então revestia esta função, da qual se incumbia a instituição religiosa. Longe do caráter privado que hoje caracteriza a escola particular, católica ou protestante, neste momento, o trabalho religioso podia se confundir, e de fato o fazia, com o interesse político do Estado. No período áureo da Cristandade, Igreja e Estado trabalhavam juntos e indissociáveis pela realização de interesses que uniam o temporal ao religioso, conformando um mesmo poder político sobre os homens do mundo civilizado e das novas terras. Império e igreja eram uma só realidade que, por sua vez, determinavam a estrutura política e social da época.

A análise do conflito que opõe o Iluminismo à prática jesuítica - percurso que poderia ser definido como o deslocamento da noção de salvação das almas em benefício de um ideal de salvação do homem -, nas relações de oposição entre estes dois termos, tanto quanto nas influências que o primeiro exerce sobre o segundo, pretende se fixar em uma concepção dualista da educação, às raízes longínquas das concepções sobre a escola pública.

Poderíamos dizer na linguagem moderna que a educação neste período era "terceirizada", e que os educadores, ao mesmo tempo que ensinavam, instituíam uma nova cultura e preparavam as populações para serem dominadas pelo poder dos impérios europeus. Neste sentido, diante da fusão dessas duas instituições, uma tirando proveito sobre a outra, é que a educação e o método jesuítico de educar são precursores na formação da escola pública, tornando-se assim indispensável seu estudo. O que é fundamental entender aqui é que a escola dos jesuítas estava totalmente a serviço do poder, pois era a única que existia, tanto para servir a elite como para servir os índios e colonos. A idéia de público aqui significa ensino para todos:

...foram os jesuítas que criaram, e, por dois séculos, quase exclusivamente mantiveram o ensino público no Brasil...os jesuítas a cada colégio, a cada casa, a cada missão juntaram uma escola, assentando os fundamentos da instrução pública, da cultura, da civilização...

Os jesuítas na educação, como vimos anteriormente, tinham um método de ensino que não foi criado a partir da realidade de cada povo, mas importado a partir de conceitos e de uma filosofia orientada pelos valores filosóficos da Igreja católica, ou seja, o Ratio Studiorum. Este elemento era o elo de unidade da pedagogia e da doutrina em qualquer parte do mundo.

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL


José Luiz de Paiva Bello
Rio de Janeiro, 1998.


INTRODUÇÃO



      A História da Educação Brasileira não é uma História difícil de ser estudada e compreendida. Ela evolui em rupturas marcantes e fáceis de serem observadas.

 
      A primeira grande ruptura travou-se com a chegada mesmo dos portugueses ao território do Novo Mundo. Não podemos deixar de reconhecer que os portugueses trouxeram um padrão de educação próprio da Europa, o que não quer dizer que as populações que por aqui viviam já não possuíam características próprias de se fazer educação. E convém ressaltar que a educação que se praticava entre as populações indígenas não tinha as marcas repressivas do modelo educacional europeu.

 
      Num programa de entrevista na televisão o indigenísta Orlando Villas Boas contou um fato observado por ele numa aldeia Xavante que retrata bem a característica educacional entre os índios: Orlando observava uma mulher que fazia alguns potes de barro. Assim que a mulher terminava um pote seu filho, que estava ao lado dela, pegava o pote pronto e o jogava ao chão quebrando. Imediatamente ela iniciava outro e, novamente, assim que estava pronto, seu filho repetia o mesmo ato e o jogava no chão. Esta cena se repetiu por sete potes até que Orlando não se conteve e se aproximou da mulher Xavante e perguntou por que ela deixava o menino quebrar o trabalho que ela havia acabado de terminar. No que a mulher índia respondeu: "- Porque ele quer."

 
      Podemos também obter algumas noções de como era feita a educação entre os índios na série Xingu, produzida pela extinta Rede Manchete de Televisão. Neste seriado podemos ver crianças indígenas subindo nas estruturas de madeira das construções das ocas, numa altura inconcebivelmente alta.

 
      Quando os jesuítas chegaram por aqui eles não trouxeram somente a moral, os costumes e a religiosidade européia; trouxeram também os métodos pedagógicos.

      Este método funcionou absoluto durante 210 anos, de 1549 a 1759, quando uma nova ruptura marca a História da Educação no Brasil: a expulsão dos jesuítas por Marquês de Pombal. Se existia alguma coisa muito bem estruturada em termos de educação o que se viu a seguir foi o mais absoluto caos. Tentou-se as aulas régias, o subsídio literário, mas o caos continuou até que a Família Real, fugindo de Napoleão na Europa, resolve transferir o Reino para o Novo Mundo.

      Na verdade não se conseguiu implantar um sistema educacional nas terras brasileiras, mas a vinda da Família Real permitiu uma nova ruptura com a situação anterior. Para preparar terreno para sua estadia no Brasil D. João VI abriu Academias Militares, Escolas de Direito e Medicina, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico e, sua iniciativa mais marcante em termos de mudança, a Imprensa Régia. Segundo alguns autores o Brasil foi finalmente "descoberto" e a nossa História passou a ter uma complexidade maior.

      A educação, no entanto, continuou a ter uma importância secundária. Basta ver que enquanto nas colônias espanholas já existiam muitas universidades, sendo que em 1538 já existia a Universidade de São Domingos e em 1551 a do México e a de Lima, a nossa primeira Universidade só surgiu em 1934, em São Paulo.
      Por todo o Império, incluindo D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II, pouco se fez pela educação brasileira e muitos reclamavam de sua qualidade ruim. Com a Proclamação da República tentou-se várias reformas que pudessem dar uma nova guinada, mas se observarmos bem, a educação brasileira não sofreu uma processo de evolução que pudesse ser considerado marcante ou significativo em termos de modelo.

 
      Até os dias de hoje muito tem se mexido no planejamento educacional, mas a educação continua a ter as mesmas características impostas em todos os países do mundo, que é a de manter o "status quo" para aqueles que freqüentam os bancos escolares.

 
      Concluindo podemos dizer que a Educação Brasileira tem um princípio, meio e fim bem demarcado e facilmente observável. E é isso que tentamos passar nesta Home Page.

 
       Cada página representa um período da educação brasileira cuja divisão foi baseada nos períodos que podem ser considerados como os mais marcantes e os que sofreram as rupturas mais concretas na nossa educação. Está dividida em texto e cronologia, sendo que o texto refere-se ao mesmo período da Cronologia. A cronologia é baseada na Linha da Vida ou Faixa do Tempo montessoriana. Neste método é feita uma relação de fatos históricos em diferentes visões. No nosso caso realçamos fatos da História da Educação no Brasil, fatos da própria História do Brasil, que não dizem respeito direto à educação, fatos ocorridos na educação mundial e fatos ocorridos na História do Mundo como um todo.

 
      Estes períodos foram divididos a partir das concepções do autor em termos de importância histórica.
      Se considerarmos a História como um processo em eterna evolução não podemos considerar este trabalho como terminado.
      Qualquer crítica ou colaboração será sempre bem vinda.

     A Companhia de Jesus foi fundada por Inácio de Loiola e um pequeno grupo de discípulos, na Capela de Montmartre, em Paris, em 1534, com objetivos catequéticos, em função da Reforma Protestante e a expansão do luteranismo na Europa.

 
      Os primeiros jesuítas chegaram ao território brasileiro em março de 1549 juntamente com o primeiro governador·geral, Tome de Souza. Comandados pelo Padre Manoel de Nóbrega, quinze dias após a chegada edificaram a primeira escola elementar brasileira, em Salvador, tendo como mestre o Irmão Vicente Rodrigues, contando apenas 21 anos. Irmão Vicente tornou·se o primeiro professor nos moldes europeus e durante mais de 50 anos dedicou·se ao ensino e a propagação da fé religiosa.

 
      O mais conhecido e talvez o mais atuante foi o noviço José de Anchieta, nascido na Ilha de Tenerife e falecido na cidade de Reritiba, atual Anchieta, no litoral sul do Estado do Espírito Santo, em 1597. Anchieta tornou·se mestre·escola do Colégio de Piratininga; foi missionário em São Vicente, onde escreveu na areia os "Poemas à Virgem Maria" (De beata virgine Dei matre Maria), missionário em Piratininga, Rio de Janeiro e Espírito Santo; Provincial da Companhia de Jesus de 1579 a 1586 e reitor do Colégio do Espírito Santo. Além disso foi autor da Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil.

 
      No Brasil os jesuítas se dedicaram a pregação da fé católica e ao trabalho educativo. Perceberam que não seria possível converter os índios à fé católica sem que soubessem ler e escrever. De Salvador a obra jesuítica estendeu·se para o sul e em 1570, vinte e um anos após a chegada, já era composta por cinco escolas de instrução elementar (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia).

       Todas as escolas jesuítas eram regulamentadas por um documento, escrito por Inácio de Loiola, o Ratio atque Instituto Studiorum, chamado abreviadamente de Ratio Studiorum. Os jesuítas não se limitaram ao ensino das primeiras letras; além do curso elementar eles mantinham os cursos de Letras e Filosofia, considerados secundários, e o curso de Teologia e Ciências Sagradas, de nível superior, para formação de sacerdotes. No curso de Letras estudava·se Gramática Latina, Humanidades e Retórica; e no curso de Filosofia estudava·se Lógica, Metafísica, Moral, Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Os que pretendiam seguir as profissões liberais iam estudar na Europa, na Universidade de Coimbra, em Portugal, a mais famosa no campo das ciências jurídicas e teológicas, e na Universidade de Montpellier, na França, a mais procurada na área da medicina.

      Com a descoberta os índios ficaram à mercê dos interesses alienígenas: as cidades desejavam integrá·los ao processo colonizador; os jesuítas desejavam convertê·los ao cristianismo e aos valores europeus; os colonos estavam interessados em usá·los como escravos. Os jesuítas então pensaram em afastar os índios dos interesses dos colonizadores e criaram as reduções ou missões, no interior do território. Nestas Missões, os índios, além de passarem pelo processo de catequização, também são orientados ao trabalho agrícola, que garantiam aos jesuítas uma de suas fontes de renda.

      As Missões acabaram por transformar os índios nômades em sedentários, o que contribuiu decisivamente para facilitar a captura deles pelos colonos, que conseguem, às vezes, capturar tribos inteiras nestas Missões.
      Os jesuítas permaneceram como mentores da educação brasileira durante duzentos e dez anos, até 1759, quando foram expulsos de todas as colônias portuguesas por decisão de Sebastião José de Carvalho, o marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal de 1750 a 1777. No momento da expulsão os jesuítas tinham 25 residências, 36 missões e 17 colégios e seminários, além de seminários menores e escolas de primeiras letras instaladas em todas as cidades onde havia casas da Companhia de Jesus. A educação brasileira, com isso, vivenciou uma grande ruptura histórica num processo já implantado e consolidado como modelo educacional.



(Cronologia)


ANO

HISTÓRIA
DA EDUCAÇÃO
BRASILEIRA

HISTÓRIA
DO
BRASIL

HISTÓRIA
GERAL
DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA
DO
MUNDO

1500

 

· Sai de Portugal a esquadra de Pedro Álvares Cabral com destino à Índia.
· Chega às costas brasileiras a esquadra de Pedro Álvares Cabral.

 

 

1501

 

· Américo Vespúcio percorre a costa do Brasil, do Rio Grande do Norte até Cananéia, em São Paulo, nomeando os acidentes geográficos litorâneos.

 

 

1502

 

· É concedida a Fernando de Noronha o direito de exploração do pau-brasil.

 

· Montezuma torna·se chefe dos Astecas, no México.

1503

 

 

 

· Morre o Papa Pio III. Em seu lugar assume Giuliano della Rovere, que adota o nome de Papa Júlio II.

1513

 

 

 

· Morre o Papa Júlio II e assume Leão X.

1517

 

 

 

· Martinho Lutero divulga suas 95 teses contra as indulgências da Igreja, dando início à Reforma Protestante.
· Os espanhóis ocupam Yucatán, na América Central.

1526

 

 

· Frei Pedro de Gante funda a Escola de São Francisco, no México.

 

1532

 

· Martim Afonso de Souza funda a vila de São Vicente, depois de comandar a primeira expedição para defender o litoral brasileiro contra o contrabando de pau·brasil pelos franceses.

 

 

1534

 

· São criadas as Capitanias Hereditárias.

 

· Ignácio de Loyola funda a Companhia de Jesus.

1536

 

 

· Frei João de Zumárraga funda o Colégio Imperial de Santa Cruz de Tlateloco, consagrado à educação superior dos índios..

 

1538

 

 

· O Colégio dos Frades Dominicanos passa a se chamar Universidade de São Tomás de Aquino, em São Domingos.

 

1539

 

 

· É impresso no México o primeiro livro.

 

1544

 

 

· A beata Angela de Mérici funda a Ordem das Ursulinas, em honra de Santa Úrsula, para educação das meninas.

 

1545

 

 

 

·Tem início o Concílio de Trento, formulando diretrizes para a Contra-Reforma e instituindo o Index Librorum Prohibitorum, lista de livros proibidos aos católicos, sob pena de excomunhão.

1549

· Chega ao Brasil o primeiro grupo de seis padres jesuítas, chefiados por Manuel de Nóbrega, marcando o início da História da Educação no Brasil (nos moldes europeus).
· Quinze dias após a chegada fundam, na cidade de Salvador, a primeira escola elementar.

· Tome de Souza, primeiro Governador Geral do Brasil, funda a cidade de Salvador para servir de sede do governo.

 

 

ANO

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

HISTÓRIA DO BRASIL

HISTÓRIA GERAL DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DO MUNDO

1551

 

 

· São criadas a Real e Pontifícia Universidade no México e a Universidade de São Marcos, em Lima.

 

1553

 

· Duarte da Costa é o segundo Governador Geral do Brasil.

 

 

1554

· São fundadas as escolas jesuítas de São Paulo de Piratininga, tendo como seu primeiro professor o padre José de Anchieta, e a da Bahia.

 

 

 

1555

 

· Primeira invasão francesa ao território brasileiro na Baía de Guanabara.
· Os franceses fundam a França Antártica, na Baía de Guanabara, para abrigar calvinistas fugidos da guerra religiosa na Europa.

 

 

1556

· É fundado o colégio jesuíta de Todos os Santos.
· Começa a vigorar as "Constituições da Companhia de Jesus", incluindo a aprendizagem do canto, da música instrumental e o estudo profissional agrícola.

 

 

 

1560

 

· Mem de Sá é o terceiro Governador Geral do Brasil.
· Mem de Sá expulsa os franceses da Baía de Guanabara.

 

 

1563

 

· Estácio de Sá funda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

 

 

1564

 

· É colocado em execução o "Padrão de Redízimo" que consistia em que 10% de toda a arrecadação dos dízimos reais, em todas as capitanias da colônia e seus povoados, ficavam vinculados ao sustento e à manutenção dos jesuítas.

 

 

1567

· É fundado o colégio jesuíta do Rio de Janeiro.

· Os franceses são expulsos do Rio de Janeiro.

 

 

1568

· É fundado o colégio jesuíta de Olinda.

· Tem início a escravidão africana, onde cada senhor de engenho teve o direito de adquirir até 120 escravos por ano.

 

 

1570

· O Brasil conta com cinco escolas elementares (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia).

 

· Carlos Borromeu funda a Ordem dos Oblatos para reliogiosos que ofereciam e se preparavam para a educação.

 

1572

 

 

 

· Em Paris são assassinados mais de três mil protestantes, entre eles mulheres e crianças, sob às ordens da Rainha Catarina de Médicis. Este episódio ficou conhecido como A Noite de São Bartolomeu.

1573

 

 

· É criada a Universidade de Santa Fé de Bogotá.

 

1575

· No colégio da Bahia já se colava grau de Bacharel em Artes.

 

 

 

1576

· No colégio da Bahia formam·se licenciados.

 

 

 

1584

 

 

 

· A imprensa chega ao Peru.

1599

· Ganha uma elaboração definitiva a "Ratio atque Institutio Studiorum", ou Plano de Estudos da Companhia de Jesus, que codificava a pedagogia dos jesuítas.

 

 

 

ANO

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

HISTÓRIA DO BRASIL

HISTÓRIA GERAL DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DO MUNDO

1600

 

 

· O vice-rei Dom Gaspar de Zuñiga promulga a Ordenança dos Mestres da Nilíssima Arte de Ler, Escrever e Contar, uma legislação escolar.

· É fundada a Companhia Britânica das Índias Orientais para explorar o comércio com o Oriente, a Ásia e a Índia.

1613

 

 

· É criada a Universidade Córdoba do Tucumã.

 

1618

 

 

· Os jesuítas possuem 572 colégios espalhados pelo mundo.
· O ducado de Weimar regulamenta a obrigatoriedade escolar para todas as crianças de 6 a 12 anos.

· Tem início a Guerra dos Trinta Anos entre protestantes e católicos.

1622

· É fundado o colégio jesuíta do Maranhão.

 

 

 

1623

 

 

· É criada a Universidade de La Plata.

 

1624

 

· Primeira invasão holandesa no Brasil, em Salvador. São expulsos um ano depois.

 

 

1628

 

 

· É editada Didactica magna, universale omnes ominia docendi artificium exhibens (a magna Didática, que apresenta a completa arte de ensinar tudo a todos) de João Amós Comênio.

 

1630

 

· Segunda invasão holandesa no Brasil, em Recife.
· Escravos fundam o Quilombo de Palmares.

 

· A imprensa chega à Argentina.

1631

· É fundado o colégio jesuíta de Santo Inácio, em São Paulo.

 

 

 

1646

 

 

· Os jansenistas, conhecidos como os "solitários de Port·Royal", organizam as "pequenas escolas" que terão importante papel na formação de líderes para a Igreja e para o Estado.

 

ANO

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

HISTÓRIA DO BRASIL

HISTÓRIA GERAL DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DO MUNDO

1652

· É fundado o colégio jesuíta de São Miguel, em Santos, o de Santo Alexandre, no Pará, e o de Nossa Senhora da Luz, em São Luiz do Maranhão.

 

 

 

1654

· É fundado o colégio jesuíta de São Tiago, no Espírito Santo.

· Os holandeses são definitivamente expulsos do Brasil.

 

 

1675

 

 

· É criada a Universidade da Guatemala.

 

1678

· E fundado o colégio jesuíta de Nossa Senhora do Ó, em Recife.

 

 

 

1683

· É fundado o colégio jesuíta da Paraíba.

 

 

 

1684

 

 

· João Batista de La Salle funda o Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs, para que os pobres obtenham gratuitamente instrução elementar.

 

1686

 

 

· Madame de Maintenon, esposa de Luiz XIV, funda o Colégio de Saint-Cyr, para meninas de 7 e 12 anos que permanecem lá até os 20 anos.

 

1688

 

 

 

· A Revolução Gloriosa destrona os Stuarts e encerra o absolutismo na Inglaterra.

1689

· É resolvida a "Questão dos Moços Pardos", surgida com a proibição, por parte dos jesuítas, da matrícula e da freqüência dos mestiços. Como as escolas eram públicas, para não perderem os subsídios que recebiam, são obrigados a readmití·los.

 

 

 

1692

 

 

· É criada a Universidade de Cusco.

 

1695

 

· Em 20 de novembro morre Zumbi dos Palmares.

 

 

1699

· É fundada na Bahia a Escola de Artes e Edificações Militares.

 

 

· Nasce em Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal.

ANO

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

HISTÓRIA DO BRASIL

HISTÓRIA GERAL DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DO MUNDO

1708

 

· Guerra dos Emboabas. Emboabas eram os estrangeiros ou pessoas vindas de outras partes da colônia para procurar ouro em São Vicente, São Paulo.

· Os jesuítas possuem 769 colégios espalhados pelo mundo.

 

1710

 

· Guerra dos Mascates, em Pernambuco.

 

 

1712

 

 

· Nasce em Genebra Jean·Jacques Rousseau.

 

1721

 

 

· É criada a Universidade da Caracas.

 

1722

· Os oficiais da Câmara queixam-se ao Rei, contra alguns religiosos, sobre a questão do ensino.

 

 

 

1738

· É fundada no Rio de Janeiro a Escola de Artilharia.

 

· É criada a Universidade de Santiago do Chile.

 

1739

· São fundados os Seminários de São José e São Pedro, no Rio de Janeiro.

 

 

 

1740

 

 

· É fundada em Paris a primeira Escola de Artes e Ofícios.

 

ANO

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

HISTÓRIA DO BRASIL

HISTÓRIA GERAL DA EDUCAÇÃO

HISTÓRIA DO MUNDO

1750

 

 

 

· Tratado de Madri anula o das Tordesilhas, resolvendo o problema das Missões.
· A introdução da máquina a vapor inicia a Revolução Industrial.
· D. José I, Rei de Portugal, nomeia Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, Secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra.

1755

 

 

 

· Um terremoto devasta a cidade de Lisboa, derrubando e incendiando casas e palácios.

1756

 

 

 

· Tem início a Guerra dos Sete Anos, motivada pelas disputas de colônias entre a Inglaterra e a França.
· Marquês de Pombal é nomeado Secretário de Estado de Negócios do Reino, com plenos poderes.

1759

· Duzentos e dez anos após a chegada e de serem os únicos responsáveis pela educação no Brasil, deixam a colônia cerca de Quinhentos padres jesuítas, expulsos pelo Marquês de Pombal, Ministro de D. José I, paralisando 17 colégios, 36 missões, seminários menores e escolas elementares.
· O Alvará de 28 de julho determina a instituição de aulas de gramática latina, aulas de grego e de retórica, além de criar o cargo de "Diretor de Estudos". Medidas inócuas para um sistema de ensino fragmentado.

· Marques de Pombal extingue as últimas Capitanias Hereditárias.